segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ah, o Natal!

O Natal é essa época do ano em que todo mundo parece estar possuído pelo ritmo ragatanga, mas na verdade a entidade que toma posse do ser das pessoas logo no comecinho de novembro (porque o Natal começa cada ano mais cedo) é ele, o famoso espírito natalino.

Mas, afinal, quem é ele, onde vive, de que se alimenta, como se reproduz? Sexta no Globo Repórter. Mentira, hoje, neste blog novo. Eis a resposta: o espírito natalino não é paz, compreensão, aceitação e solidariedade. O espírito natalino é essa loucura que envolve compras, compras, encheção de saco de funcionários de shoppings, trânsito mais louco do que o normal e mais compras. Porque o Natal acontece em função dos presentes que você tem que comprar pra todo mundo que você ama, mas é importante que você faça isso na última hora possível, porque você ama tanto essas pessoas e tem tanta consideração por elas que decidiu comprar tudo por impulso, sem parar para escolher algo bacana com cuidado e tempo.

Eis que saio de casa hoje decidido a encarnar o verdadeiro espírito natalino (aquele da compreensão e tal). Já que trabalho em um shopping, a catedral sagrada do Natal (tem um papai Noel gigante na porta, com o qual os pais obrigam seus filhos a tirarem foto - mesmo que eles morram de medo daquele boneco imenso, vesgo e envergado para frente, como se fosse cair a qualquer momento em suas pequenas cabeças - e ao qual os mesmos filhos aterrorizados são obrigados a agradecer, depois de um beijinho na mão de plástico, pelo presente que ele trará amanhã), nada mais justo do que tentar fazer parte disso, mas de forma correta.

O primeiro teste do espírito natalino politicamente correto foi o trânsito. Deixe-me dizer uma coisa: eu vivo em uma cidade em que as pessoas são incrivelmente imbecis atrás de um volante ou guidão. Ninguém dá seta, ninguém respeita pare, semáforo, mão e o direito de ir e vir (e estacionar onde veio) do próximo. Quando a época em questão implica em pessoas desesperadas por compras de última hora, então, a cidade vira um caos. E pode parecer bairrismo idiota, mas quando eu leio a placa do carro da frente e ela diz que seu motorista é cidadão de alguma das cidadezinhas pequenas ao redor, minha atenção para freadas bruscas, ultrapassagens insanas e conversões imprudentes quintuplica. Mas ok, compreensão, mentalizo. É Natal, somos todos iguais, morando em Rio Preto ou em Tanabi. Sigo em frente.

Quinhentos e quarenta e nove semáforos dessincronizados, setecentas freadas bruscas, cento e trinta e três xingamentos mentais e sete princípios de infarto depois, chego no meu local de trabalho: a maior livraria da cidade, no shopping mais movimentado da dita cuja. Nem cogito a hipótese de procurar uma vaga no estacionamento do shopping. É véspera da véspera de Natal, o estabelecimento deve estar uma loucura e deve ter carro estacionado até nas copas das árvores. Então estaciono fora, mesmo, e corro para a livraria porque, graças ao trânsito, estou cinco minutos atrasado.

Minhas suspeitas se confirmam quando entro na loja. Tem criança berrando os pulmões fora, tem madame dando barraco porque o sistema da loja atravou (desculpe-me, senhora, vou me castigar fisicamente quando chegar em casa, porque a culpa é mesmo minha), tem livro de budismo no meio de livro erótico, e tem supervisor regional presente avaliando tudo, justo no dia em que parece que tá rolando um flash mob da Segunda Guerra Mundial dentro da loja. Subo as escadas e me pergunto a que horas aparecerá a Miley Cyrus em sua Wrecking Ball derrubando todas as estantes de vez. Tem Bruno ficando louco? Tem sim, senhor. Respiro fundo, subo as escadas e tento relembrar o mantra: compreensão-aceitação-paz-solidariedade.

De volta ao campo de batalha, com meu avental vermelho-batom-da-Taylor-Swift, eis que surge outro teste de espiritonataliação do dia:
- Você trabalha aqui?
Não, tô de avental porque tô fazendo um bolo. Mas tem que sorrir.
- Sim.
- Tô procurando aquele livro do Augusto Cury, "O Vendedor de Sonhos".
- O primeiro ou o segundo?
- O primeiro.
- Só um instante.
Consulto no sistema. Estoque local: 0.
- Olha, esse livro acabou. Só temos ele por encomenda.
- Não, mas eu vim aqui antes de ontem e tinha.
- Então, tinha mesmo. Mas compraram.
- Não, deve ter em algum lugar.
Em algum lugar deve ter mesmo, mas não aqui, criatura.
- Aqui no nosso estoque está zerado.
- Não é possível, eu vim aqui antes de ontem, a moça ficou com ele.
- Você reservou?
- Não, mas ela ficou com ele. Não tem como você perguntar pra ela se ela guardou?
- Quem era a vendedora?
- Não sei...
Aí, caro leitor, fica difícil exercitar a aceitação-compreensão-paz-solidariedade.
- Espera que eu vou ver.
- Ok.
Procuro no balcão de atendimento, onde ele me indica que deixou o livro com "a moça", e não está.
- É amigo, não tem mesmo.
- Nossa, cara, deve ter.
Não tem, filho! Aceita a perda! Deixe ir! Let it be! Desapega! Ou, no mínimo, encomenda.
- Não tem mesmo.
- Em nenhum lugar? Não está perdido, enfiado no estoque, algo assim?
- Pouco provável. O sistema diz que o estoque local é zero. Olha aqui.
Ele olha, mas parece que não vê.
- Poxa vida, procura ele pra mim.
Respiro fundo.
- Olha, eu posso até procurar, mas se o sistema diz que não tem nenhum, é porque não tem nenhum!
Entendeu ou quer que eu faça uma apresentação em PowerPoint?
- Ok. Obrigado.
Ufa!

Mal me recomponho do princípio de síndrome do pânico que o sujeito me causou, surge uma garota que mal olhava para mim enquanto falava, porque não tirava os olhos do celular.
- Você tem aquele livro "As 5 linguagens do amor"?
Consulto no sistema. Tem! Aleluia! Não vou precisar convencê-la de que zero significa NÃO ME FAÇA PROCURAR ALGO QUE NÃO EXISTE!
- Tenho sim.
- E o "As 5 linguagens do perdão"?
Consulto. Não tem. :(
- Esse, só por encomenda.
- Ah... Eu queria ele.
- Mas posso pegar o "do amor" para você.
- Ahnmmnnmn... *celular, celular, celular*. Você tem "A força do perdão"?
- Esse eu tenho.
Mal me afasto do terminal de consulta para pegar o livro na mesa, ela me interrompe.
- E "Por entre as flores do perdão"?
Mas gente, que mal essa menina sofreu na vida que quer tantoperdoar? É só perdoar, filha. Toma uma aguinha, ouve uma música, fecha os olhos, respira fundo e perdoa. Cristo fez isso sem precisar de livro nenhum.
- Esse, só por encomenda.
- Ah, eu queria esse.
- Mas tem o outro.
- Não, deixa quieto, então. Que horas o shopping fecha hoje?
- Meia-noite.
- Que ótimo! - exclama, feliz da vida. Vai ter mais tempo para comprar. Vai ter mais gente pra encher o saco em um mesmo dia. Imperdoável.
Ótimo porque não é você que tem que trabalhar até tal horário. (Eu também não tenho, porque estou em experiência, mas me solidarizo pelos meus colegas que o farão).

No meu intervalo de janta, fico imaginando qual seria o ponto ideal para instalar uma bomba naquele shopping. Concluo, então, que meu espírito natalino está morto. Sinto-me culpado, mas olho ao meu redor: aquela fúria por compras, como se esse fosse o significado principal da data (como se não fosse...), as pessoas passando umas por cima das outras (nos corredores do shopping, no trânsito, na vida), a gritaria e o desespero que a data da "harmonia e solidariedade" causa nas pessoas. Pergunto-me, afinal, o que é esse espírito natalino que todo mundo diz que tem, mas que ninguém sabe de verdade o que é.

Um comentário:

Vinícius disse...

Muito boas suas histórias na livraria :D