quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Demônio

Finalmente consigo pegar no sono, por volta das três da manhã, quando acordo com o barulho da porta do quarto fechando. "Mas ela já estava fechada!", penso. Então me lembro que havia assistido a um vídeo de exorcismo no YouTube minutos antes de dormir.

Fodeu! É o capeta! Desbloqueei um portal no meu quarto, invoquei o mal. Vou acordar amanhã possuído, falando grego, latim, hebraico ao contrário, vomitando abacatada.

Viro hetero e evangélico na hora! Começo a orar, pedir perdão pelos meus pecados, prometer que amanhã mesmo terminarei meu namoro anticristo. Invoco Deus, Marco Feliciano, Silas Malafaia. Encarno a Cassiane e começo a cantarolar mentalmente "Jesus o filho de Davi está passando aqui, até a orla do vestido Dele faz curar, pois há virtude e há unção, toque agora, estenda a mão..."

Um ruído na escrivaninha do computador interrompe minha unção cassianística. É ele! Vai pular em cima de mim, me pegar pelos pés, morder minha bunda. Meu Deus, socorro, Senhor! Eu preciso de ti, ó pai, entra na minha casa, no meu quarto, na minha vida!

Justo agora que eu consegui o emprego que eu queria? Justo agora que está dando tudo certo? Não posso ser possuído, não é possível! Ir trabalhar possuído dá justa-causa! O que eu vou falar pro meu namorado? "Não é você, sou eu... e o capeta dentro de mim"? O que meus pais vão pensar? Eles, que me criaram com tanto amor, carinho e momentos de constrangimento público, pra isso? Pra ter que acordar e ver o filho deles andando de mesinha pela sala, gritando ME POSSUA, matando cachorro a grito, dando mortal-de-frente-mortal-de-costas, igual à Barbia-mortal-de-frente versão 2 em 1?

Outro barulho no quarto faz com que eu me cubra até a cabeça. Morro de calor e acredito que já fui puxado ao inferno. Durmo assim e acordo no dia seguinte sem nenhuma língua nova e desconhecida sendo pronunciada, mas ensopado de suor.

Demônio, mesmo, é nossa imaginação.

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